domingo, 31 de julho de 2016

pra quem já foi sol e perdeu o “l”

num fim de julho de 2016

Me descobri sozinha muito cedo. Corpo magro, estatura baixa, aparentando ter cinco anos menos e já carregando o mundo nas costas. Uma mala de sonhos revelados no espelho pelo microfone feito de escova de cabelo, uns amigos de travesseiro e uma janela de papel, que mais tarde ganharia no coral, colada na parede do quarto pra acalmar a angústia. Antes disso, alguns momentos soltos que já prenunciavam a sina de nunca caber, porque sempre estaria escorrendo, a ponto de (me) afogar. Uma espécie de autofagia. Um negócio desmedido, que nunca passava, até quando se achou que acabaria quando tivesse a presença de alguém. Parecia um troço de carma e de ciclo, que volta e meia aparecia destroçando tudo. Fazendo lembrar dos dias que ganhei a boneca de pano, da foto que sozinha tirei, dos dias que fui embora e precisei voltar. Dos dias que não tinha ninguém, apenas as lágrimas que de tão presentes poderiam um dia até ser chamadas de gente. Mas tinha gente não. Tinha mala, livro, sapato, lençol azul, música triste, ventilador, porta sem chave, fita do Bonfim balançando, luz vermelha na tomada. Tinha até botão e calafrio no corpo. Mas gente eu sabia que não tinha. Tinha o mundo e eu, pesados e cansados, e, numa espécie de revezamento, carregando o mais ferido pra não morrer. Essa noite não sei que mais padeceu, sei que estamos aqui abraçados, jurando, mais uma vez, não desistir.