segunda-feira, 28 de maio de 2018

quando a melancolia mudou de lugar

Faz tempo que eu gostaria de escrever sobre a experiência de sair da casa dos meus pais. Eu penei por muitos dias para transpor em palavras aquele evento novo. Achava engraçado o fato de, por muito tempo, não conseguir me ver por completo, porque os espelhos da minha casa só permitiam que eu me visse fragmentada. Era tão bom ver aqueles pedaços ali na vertical, se formando como acontecia internamente. E hoje, me vendo inteira e mais forte, me orgulho de cada pedaço que com muito esforço reconstruí. Vejo meus olhos que, muito mais apurados, conseguem ler o mundo de uma forma mais plural e menos binária. Ouço com paciência o som que sai da minha boca e noto como ele e meus ouvidos muito dizem da minha origem e do que, em grande parte, me constitui como gente. Eu sinto meus membros pouco mais firmes e percebo que meus pés falam de muito longe, de caminhos e rotas que me fortaleceram. Vejo como se minha pele reluzisse e meu cabelo gritasse palavras de ordem graças às forças ancestres e femininas que por mim passaram. E por isso, ainda que o vento forte tenha me movido de lugar, porque seguir é necessário e a vida pede isso, eu sou grata. Sou grata por esse reflexo inteiro e ainda pouco coeso (confesso!), mas que reerguido, consegue ver beleza na vida, nas pessoas e no amor. É bem clichê. Eu sei. Mas pra quem, com muito esforço, conseguiu ressignificar esse sentimento tão nobre, que sempre foi compreendido apenas pela perspectiva da dor, é reconfortante olhar pra trás e ver o caminho de felicidade que é capaz de ser trilhado quando a gente permite se conhecer. No fim (que nunca é fim, mas o encerramento de um ciclo do tanto de coisas que nos permitiremos viver), é bonito perceber que, realmente, somos atravessados o tempo inteiro por pessoas e afetos e só nos resta avaliar e receber esse grande presente da Vida. E seguir. Sempre.