sábado, 10 de abril de 2021

o fio da vida de maria

Maria costurava. No meio de todo o caos que a sua existência lhe conferia, era o ofício herdado da mãe que alimentava os dias e a dispensa. Quando se viu desempregada e depois da trágica morte do marido, a máquina velha e acumulada de poeira no quartinho passou a ser o seu refúgio. O som ruidoso e pisar no pedal lhe transportavam para uma estrada em linha reta tal qual os pontos que saíam no tecido. Pensava nos carros e em quem os dirigia, mas as bainhas intermináveis nas calças dos trabalhadores da construção civil logo lhe lembravam do contrário: “Dirigir um carro? Isso lá é possível pra gente como eu...”, resmungava antes de desatar a rir e pisar com força no que seria o seu acelerador imaginário. Sua vida de remendos parecia não comportar sonhos, nem os mais banais. Costurava noites adentro, temendo o dia de não mais suportar o corpo cada vez mais corroído de artrose. Era o único ponto que sabia não poder dar. De todas as texturas e cores que lhe habitavam, até ali, sua vida era um completo alinhavo sem nó, a ponto de se desfazer sem qualquer esforço. Era com desimportância que Maria olhava ao redor, em mais uma casa que poderia pagar o aluguel. A frustração era o que lhe guiava desde quando precisou abandonar a escola e nunca mais retornou. Vieram o casamento, a casa e os filhos e só depois de se ver novamente sozinha na vida, é que, com a costura, se lembrou do prazer de sentar numa cadeira e aprender. A máquina lhe ensinava tanto, mas pregar botões parecia ser mais fácil do que deixar brotar qualquer afeto. Foi a orfandade e a viuvez que fizeram de Maria uma colcha de tecidos esgarçados, um lençol que pouco agasalhou seus rebentos, que tão logo crescidos se perderam no mundo como carretel vazio. A linha fina que lhe costurou não suportou a agressividade de sua história, e no eterno arrebentar de ciclos, Maria entendia que sem um nó era impossível segurar uma costura. Os apertos da vida a impediam de olhar o verso e ver onde a agulha fincou o precioso ponto. E de corte em corte percebeu que poderia ser um belo vestido ou até uma camisa de botão, mas o papel que a modelou jamais se concretizou no tecido.