domingo, 4 de dezembro de 2016

(sobre desistir)

em 11 de agosto de 2016

Eu desisti de ser advogada desde quando fui dar entrada nas certidões para a OAB e esbarrei numa colega que estava lá mantendo a pose e fingiu que não me conhecia. Desisti quando minha autonomia profissional e estratégia processual tiveram de dar lugar pra caprichos alheios. Desisti quando chorei sozinha as perdas da parte adversa, o que dizem ser inadmissível nesta profissão, ainda que você tenha agido manifestamente como um cretino. Desisti quando precisei caber numa caixa de fórmulas prontas e rotinas esquizofrênicas em nome da subsistência - o que eu não acredito MESMO ser deslegítimo, até porque as contas chegam, os anos passam e elas continuam aumentando, sejam as financeiras, sejam as com a própria vida. Desisti porque essa briga de egos é um saco, conversa de advogado é um saco e, sinceramente, tirando os meus amigos, poucos se salvam.
Pode parecer pessimista, mas continuo desistindo de fazer parte desse grupo de advogados que vocês hoje parabenizam, essa gente que se veste bem, fala rebuscado e é instrumento da Justiça. Uma "justiça" que não olha no olho, que não se compadece, que não respeita o trabalho do outro e que, no fim das contas, nem se reconhece mais.
Eu desisto diariamente de ser a advogada que permeia o imaginário das pessoas, pondo o cabelo, as ideias e a voz nas alturas, porque a única forma de desistir da prepotência que o "conhecimento" para muitos ainda leva, eu aprendi, é resistindo.

cobra

em 20 de novembro de 2016

Assim que nasci já fui sentenciada: deus não dá asas à cobra. Foi sabendo de cor esse lema de quem é pobre, que no alto da minha adolescência escutava as negativas: de não poder sair, de que era perigoso voltar sozinha e que sem a companhia de um homem jamais daria. Tudo endossado com “sua hora vai chegar”.
Com o tempo, vieram os trabalhos, o consequente dinheiro na mão e a ilusão de poder comprar tanta coisa, as noites perdidas da puberdade e a volta para casa em segurança, inclusive. Descobri a forma de, aos pouquinhos, poder voar e a delícia que era, afinal, ter asas. Em contrapartida, tinham as lágrimas que escorriam pela cara quando te negavam levar em casa, mesmo tendo contratado o serviço para isso, ou quando até cogitavam te largar na “avenida principal” no meio da chuva. Talvez fosse o preço a ser pago... até aí eu não sabia.
Eu fui me convencendo cada vez mais do quanto era possível voar... esbarrei em muitos lugares aprendendo o ofício, mas, afora o repertório de histórias e vivências adquiridas, me machuquei a ponto de sentir a necessidade de reaprender a pousar, fazendo, agora, o caminho inverso.
O que ainda fica, entre a respiração ofegante e a mania de sempre racionalizar todas as coisas – ou o sol em peixes e seis planetas em capricórnio –, é o fato que: não é a cobra que não pode ter asas, é o mundo que não sabe lidar com o voo de quem foi compreendido só por rastejar.
Porque ainda é vinte (de novembro).
Porque continuamos correndo.
Porque queremos voar.
Porque me faltou gás e eu quis parar.

domingo, 31 de julho de 2016

pra quem já foi sol e perdeu o “l”

num fim de julho de 2016

Me descobri sozinha muito cedo. Corpo magro, estatura baixa, aparentando ter cinco anos menos e já carregando o mundo nas costas. Uma mala de sonhos revelados no espelho pelo microfone feito de escova de cabelo, uns amigos de travesseiro e uma janela de papel, que mais tarde ganharia no coral, colada na parede do quarto pra acalmar a angústia. Antes disso, alguns momentos soltos que já prenunciavam a sina de nunca caber, porque sempre estaria escorrendo, a ponto de (me) afogar. Uma espécie de autofagia. Um negócio desmedido, que nunca passava, até quando se achou que acabaria quando tivesse a presença de alguém. Parecia um troço de carma e de ciclo, que volta e meia aparecia destroçando tudo. Fazendo lembrar dos dias que ganhei a boneca de pano, da foto que sozinha tirei, dos dias que fui embora e precisei voltar. Dos dias que não tinha ninguém, apenas as lágrimas que de tão presentes poderiam um dia até ser chamadas de gente. Mas tinha gente não. Tinha mala, livro, sapato, lençol azul, música triste, ventilador, porta sem chave, fita do Bonfim balançando, luz vermelha na tomada. Tinha até botão e calafrio no corpo. Mas gente eu sabia que não tinha. Tinha o mundo e eu, pesados e cansados, e, numa espécie de revezamento, carregando o mais ferido pra não morrer. Essa noite não sei que mais padeceu, sei que estamos aqui abraçados, jurando, mais uma vez, não desistir.