em 11 de agosto de 2016
Eu desisti de ser advogada desde quando fui dar entrada nas certidões para a OAB e esbarrei numa colega que estava lá mantendo a pose e fingiu que não me conhecia. Desisti quando minha autonomia profissional e estratégia processual tiveram de dar lugar pra caprichos alheios. Desisti quando chorei sozinha as perdas da parte adversa, o que dizem ser inadmissível nesta profissão, ainda que você tenha agido manifestamente como um cretino. Desisti quando precisei caber numa caixa de fórmulas prontas e rotinas esquizofrênicas em nome da subsistência - o que eu não acredito MESMO ser deslegítimo, até porque as contas chegam, os anos passam e elas continuam aumentando, sejam as financeiras, sejam as com a própria vida. Desisti porque essa briga de egos é um saco, conversa de advogado é um saco e, sinceramente, tirando os meus amigos, poucos se salvam.
Pode parecer pessimista, mas continuo desistindo de fazer parte desse grupo de advogados que vocês hoje parabenizam, essa gente que se veste bem, fala rebuscado e é instrumento da Justiça. Uma "justiça" que não olha no olho, que não se compadece, que não respeita o trabalho do outro e que, no fim das contas, nem se reconhece mais.
Eu desisto diariamente de ser a advogada que permeia o imaginário das pessoas, pondo o cabelo, as ideias e a voz nas alturas, porque a única forma de desistir da prepotência que o "conhecimento" para muitos ainda leva, eu aprendi, é resistindo.