em 20 de novembro de 2016
Assim que nasci já fui sentenciada: deus não dá asas à cobra. Foi sabendo de cor esse lema de quem é pobre, que no alto da minha adolescência escutava as negativas: de não poder sair, de que era perigoso voltar sozinha e que sem a companhia de um homem jamais daria. Tudo endossado com “sua hora vai chegar”.
Com o tempo, vieram os trabalhos, o consequente dinheiro na mão e a ilusão de poder comprar tanta coisa, as noites perdidas da puberdade e a volta para casa em segurança, inclusive. Descobri a forma de, aos pouquinhos, poder voar e a delícia que era, afinal, ter asas. Em contrapartida, tinham as lágrimas que escorriam pela cara quando te negavam levar em casa, mesmo tendo contratado o serviço para isso, ou quando até cogitavam te largar na “avenida principal” no meio da chuva. Talvez fosse o preço a ser pago... até aí eu não sabia.
Eu fui me convencendo cada vez mais do quanto era possível voar... esbarrei em muitos lugares aprendendo o ofício, mas, afora o repertório de histórias e vivências adquiridas, me machuquei a ponto de sentir a necessidade de reaprender a pousar, fazendo, agora, o caminho inverso.
O que ainda fica, entre a respiração ofegante e a mania de sempre racionalizar todas as coisas – ou o sol em peixes e seis planetas em capricórnio –, é o fato que: não é a cobra que não pode ter asas, é o mundo que não sabe lidar com o voo de quem foi compreendido só por rastejar.
Porque ainda é vinte (de novembro).
Porque continuamos correndo.
Porque queremos voar.
Porque me faltou gás e eu quis parar.
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