sexta-feira, 5 de maio de 2017

Laroyê

em cinco de maio de 2017


Tem uma escada que é caminho para a casa dos meus pais. Ela é um marco na minha vida. Na infância, foi através dela que vi a criação dos meus primeiros laços de afeto e entendi, já brevemente, um pouco sobre distâncias. Crescendo, vi o quanto de insegurança cercava aquela escada: os assaltos e o desconhecido faziam dela um lugar que deveria ser evitado, principalmente à noite. Hoje eu sei menos de passos do que antes. Tenho questionado o tamanho das minhas pernas, o tempo dos meus caminhos e o lugar onde piso, mas ver aquela escada tão grande e a esquina que a antecede não me causa medo. Eu a vejo antes de chegar e depois de passar pelos boêmios de todo dia. Ela está lá depois de um poste com a luz fraca e que é morada de quem me cuida. Eu o saúdo quando passo. E os passos não têm pressa, porque subir não tornaria menos sagrado o chão que piso. Do pouco desse caminho tortuoso, muito salta, mesmo quando os pés vagueiam sem direção. Arrepia a pele, abre a boca, sai palavra. Meu caminho é dele. Meu caminho sou eu. E escadas são passagens. Necessárias passagens.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

(pra quem não é peixe e está muito longe do mar)

em 25 de janeiro de 2017

Há quem diga que queremos estampar nossas dores em todos os outdoors pela cidade. Há quem veja a mochila pesada, mas prefira enxergar só uma necessidade daquele corpo em deixar visível a curvatura, do que o real peso que nela existe. Há quem ache sem lugar o choro, o soluço e o desespero. Há quem ache teatral demais prum ser humano. Há quem finja que não vê. Há quem não veja. E existem nós. Os sensíveis demais. Dramáticos demais. Chatos demais. Esses seres por um fio, que estão sempre derramando. Agora sabe o que dói? Dói o fato de que nunca queremos muito. Às vezes, a gente quer só uma mão pra atravessar a ponte e não deixar que olhemos o quanto embaixo dela, pra nós, é perigoso, porque há uma vontade quase que incontrolável de se jogar. Basta um olhar pra te dar abrigo no meio de toda aquela gente estranha e avulsa, mas a maioria das vezes ele tá lá na merda da tela do celular espreitando e curtindo a vida de quem nem perto, fisicamente, está. A gente quer abraço – amamos abraços! -, porque tantas vezes falta casa e é necessário saber onde, de fato, se mora, porque a culpa de ser só já pesa por demais. E, olha, a gente nem quer falar da dor, sabe... A gente quer as cócegas durante o abraço, lembrar daquele retrato engraçado, de como eu falo embolado quando estou bêbada. A gente sempre preferiu rir, só que as vezes não dá, é um mundo inteiro padecendo e você dentro dele pra carregar, assim, numa porrada só. É confuso mesmo. E muitas vezes doído. Muitas mais solitário. É. Ainda continua mais fácil se emocionar com Coração Selvagem pelo computador. Belchior sumiu, talvez por isso ele hoje seja mais legal.