E se não falasse que chorei? Se enxugasse o olho como se aquela cena de despedida nada me dissesse? Se escondesse a dor que imobilizou o corpo que já deveria pressentir a ausência que viria no próximo ato? Era papo de construção de personagem. Tudo cena. A personagem com crise de ansiedade. A luz amarela no poste. O carro que nunca estacionou. A lágrima, o suor, o gozo. Tudo teatro. De uma preparação simplória que uma atriz decadente resolveu engatar. E de um decadente quase obsoleto, que não sabia como se transportar para outra linguagem. Onde era tudo audiovisual. O quadro, as cores, o som. Tinha um preto que imperava. E ela não mais sabia se era mesmo ausência de cor. O olho que brilhava, o corpo que reluzia, o contorno que se sobrepunha à pele numas linhas que quase não se acabavam. O milésimo de segundo de um sorriso que revelou a paixão e a ponta de um nariz que dizia ser ela correspondida. Tudo cinema. Mas aí se encontraram. No exato momento que o artístico disse: é hora de ter uma carreira. Quando os nãos de toda vida viraram sim e as águas que banharam o terreno de autossabotagem escorreram, finalmente, em lágrimas de alegria. Falar que se cruzaram na vida dava um ar muito romântico para o roteiro. Se bateram. Se trombaram. Se engalfinharam. Como era o natural de dois corpos que ocupam o mesmo espaço. Não esse de Newton, mas o fruto de um desejo ancestral. De celebração de vida. De dilatação do prazer. De sincronicidade. Dois corpos pretos e grandes no mundo. Com todas as possíveis interpretações e provocações que essa pequena frase poderia ter: dois corpos pretos e grandes no mundo. O teatro daria umas entonações que o cinema poderia julgar intensas demais. E o pequeno para o cinema poderia ser insosso pro teatro. Quem saberia? Daí veio o impasse: o roteiro. Um único roteiro. De uma história a dois. Ele se afobou e tomou pra si a função de escrevê-lo. Como se de teatro falasse, conduziu tal como um monólogo, escrito, dirigido e produzido exclusivamente por ele. E sem grande elenco. Assim, típica terceira pessoa solitária. Ainda desenhou a luz no espaço e capturou, pela ultima vez, a luz amarela que tanto lhe enfeitiçava. Escreveu o fim naquela página, como se peça realmente fosse e torceu pra engrenagem não parar como no dia que teve medo de perdê-la. Ou assim disse que sentiu. Ela engoliu seco quando ouviu que o roteirista inevitavelmente sabia do final do filme. “Antes até de escrevê-lo”, disse ele. Ela não sabia o final, só sentou e permitiu que a luz amarela desenhasse seu cabelo pra câmera. Abriu a porta e seguiu a superstição pra que ele voltasse, mesmo depois de sair primeiro, com a página arrancada. Escreveu um texto bonito e revisitou as fotos tal qual um frame, como se curta-metragem fosse. Típica primeira pessoa, desejando o plural. Esperou cessar todo ruído, porque era impossível gravar assim. E, mesmo sem saber de cinema, duvidou que uma luz amarela significasse final de qualquer coisa.
domingo, 13 de dezembro de 2020
sexta-feira, 11 de dezembro de 2020
Rio Camurujipe
Num dia desses de quarentena, descobrimos que uma ponte igualmente ligava nossa infância. Ponte é uma palavra bonita para ser empregada metaforicamente, mas nesse caso não. Crescemos à beira de um esgoto a céu aberto, os famosos diques, e pontes de madeira desgastadas eram passagens necessárias para as famosas ruas de “trás” e ruas da “frente”. Pelos relatos, as pontes pareciam iguais, com enormes espaços entre uma madeira e outra, além dos corroídos pelo tempo, e eram levemente rebaixadas, o que só aumentava o medo de cair naquela água cinza, onde os meninos ainda se aventuravam para pegar as bolas de futebol que fatalmente caíam e nela boiavam. Foi assim que descobrimos mais uma similaridade das nossas histórias. Morar com alguém que entendia a estratégia de passar correndo na ponte, além de todas as outras táticas de sobrevivência que se impunham pelo que éramos – meninas pobres e pretas – e já confirmadas pelo tempo, evidenciava uma escolha acertada no dia do fatídico “sim”. Tenho um discurso pronto quando falo sobre a decisão de morarmos juntas, porque naquele dia – que eu adoraria lembrar a data –, ao ler aquele texto – que eu também gostaria de ter ainda hoje –, o convite foi feito muito em virtude de termos origens e necessidades parecidas. Nascidas no subúrbio e na periferia de Salvador, trabalhar no novo centro comercial da cidade exigia atravessar parte de uma rodovia federal – a famosa BR 324 –, o que tornava o deslocamento mais uma problemática para duas garotas, formadas em Direito, que não encontravam na profissão uma paixão. Ouso dizer que essa é a base do nosso casamento, já que nos esbarramos tentando encontrar algum sentido na advocacia, trabalhando voluntariamente numa ONG. Nossos olhos sempre brilharam por arte, e arte parecia estar bem longe do juridiquês. E estava. Eu já não morava tão perto da BR, como antes, mas circunstâncias outras exigiam que fizesse mais uma mudança. Foi aí que disse sim. Há um equilíbrio bonito na nossa relação: eu mato as baratas, ela cuida dos outros animais que frequentemente visitam nossa casa, como micos e passarinhos; eu organizo e verifico os valores enquanto passo os mantimentos no caixa, ela empacota as compras; eu tenho certa veneração em limpar o banheiro e coisas pequenas, ela prefere a faxina da casa. E dificilmente conseguiríamos desempenhar com primor uma dessas tarefas, tão bem desenvolvidas pela outra. Ela é simpática com os vizinhos e eu sigo rabugenta. Não fosse ela, certamente jamais teríamos sido surpreendidas, no meio da pandemia, com uma pizza dada pela vizinha e nem a chamaríamos hoje, carinhosamente, de dona Juju. Alguns ainda seguem nos confundindo, tudo por conta do black power, mesmo eu sendo uns dez centímetros maior, o que ela discorda veementemente, mas é real. Na quarentena não foi diferente, eu aprendi sobre drenagem de plantas, enquanto a casa foi tomada por óleos essenciais, incensos e uma gata chamada Elizabeth, tudo isso capitaneado por ela. Há uma pulsação particular que permite cantarmos juntas “alecrim dourado” e até algumas outras músicas ao mesmo tempo, como um bem concluído exercício para a cena. Existem bordões que são repetidos no nosso cotidiano, até os provenientes de memes, e há um apoio secreto para os dias de banzo e calundu, quando o distanciamento se impõe e enxergar a outra é uma tarefa delicada. Mas nem sempre é equilíbrio. Existe uma fenda nas nossas histórias que nem a ponte sobre o Rio Camurujipe e que cruzou nossas vidas é capaz de dar conta. Aprendemos a passar correndo porque o rio tinha se transformado em esgoto e havia um recado inconsciente de não escorregar porque a insalubridade da queda seria demais para nossas existências. Não poder caminhar devagar sobre uma ponte que cambaleava não seria um marco, se cruzá-la não fosse tão imprescindível. E cruzamos correndo, porque só assim era possível. Não ver o rio deu outro destino aos nossos trajetos, deixando enormes buracos onde sempre só coube poesia. E talvez por conta do dique e da eterna tentativa de nele não cair, tivemos de ver figurino e métrica em letras amorfas da legislação, rindo de quem fala rebuscado sem nada dizer, porque em nossas veias ainda corre o rio e em nossas cabeceiras habitam seus livros e meus personagens favoritos.
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