domingo, 13 de dezembro de 2020

luz amarela

E se não falasse que chorei? Se enxugasse o olho como se aquela cena de despedida nada me dissesse? Se escondesse a dor que imobilizou o corpo que já deveria pressentir a ausência que viria no próximo ato? Era papo de construção de personagem. Tudo cena. A personagem com crise de ansiedade. A luz amarela no poste. O carro que nunca estacionou. A lágrima, o suor, o gozo. Tudo teatro. De uma preparação simplória que uma atriz decadente resolveu engatar. E de um decadente quase obsoleto, que não sabia como se transportar para outra linguagem. Onde era tudo audiovisual. O quadro, as cores, o som. Tinha um preto que imperava. E ela não mais sabia se era mesmo ausência de cor. O olho que brilhava, o corpo que reluzia, o contorno que se sobrepunha à pele numas linhas que quase não se acabavam. O milésimo de segundo de um sorriso que revelou a paixão e a ponta de um nariz que dizia ser ela correspondida. Tudo cinema. Mas aí se encontraram. No exato momento que o artístico disse: é hora de ter uma carreira. Quando os nãos de toda vida viraram sim e as águas que banharam o terreno de autossabotagem escorreram, finalmente, em lágrimas de alegria. Falar que se cruzaram na vida dava um ar muito romântico para o roteiro. Se bateram. Se trombaram. Se engalfinharam. Como era o natural de dois corpos que ocupam o mesmo espaço. Não esse de Newton, mas o fruto de um desejo ancestral. De celebração de vida. De dilatação do prazer. De sincronicidade. Dois corpos pretos e grandes no mundo. Com todas as possíveis interpretações e provocações que essa pequena frase poderia ter: dois corpos pretos e grandes no mundo. O teatro daria umas entonações que o cinema poderia julgar intensas demais. E o pequeno para o cinema poderia ser insosso pro teatro. Quem saberia? Daí veio o impasse: o roteiro. Um único roteiro. De uma história a dois. Ele se afobou e tomou pra si a função de escrevê-lo. Como se de teatro falasse, conduziu tal como um monólogo, escrito, dirigido e produzido exclusivamente por ele. E sem grande elenco. Assim, típica terceira pessoa solitária. Ainda desenhou a luz no espaço e capturou, pela ultima vez, a luz amarela que tanto lhe enfeitiçava. Escreveu o fim naquela página, como se peça realmente fosse e torceu pra engrenagem não parar como no dia que teve medo de perdê-la. Ou assim disse que sentiu. Ela engoliu seco quando ouviu que o roteirista inevitavelmente sabia do final do filme. “Antes até de escrevê-lo”, disse ele. Ela não sabia o final, só sentou e permitiu que a luz amarela desenhasse seu cabelo pra câmera. Abriu a porta e seguiu a superstição pra que ele voltasse, mesmo depois de sair primeiro, com a página arrancada. Escreveu um texto bonito e revisitou as fotos tal qual um frame, como se curta-metragem fosse. Típica primeira pessoa, desejando o plural. Esperou cessar todo ruído, porque era impossível gravar assim. E, mesmo sem saber de cinema, duvidou que uma luz amarela significasse final de qualquer coisa.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Rio Camurujipe

Num dia desses de quarentena, descobrimos que uma ponte igualmente ligava nossa infância. Ponte é uma palavra bonita para ser empregada metaforicamente, mas nesse caso não. Crescemos à beira de um esgoto a céu aberto, os famosos diques, e pontes de madeira desgastadas eram passagens necessárias para as famosas ruas de “trás” e ruas da “frente”. Pelos relatos, as pontes pareciam iguais, com enormes espaços entre uma madeira e outra, além dos corroídos pelo tempo, e eram levemente rebaixadas, o que só aumentava o medo de cair naquela água cinza, onde os meninos ainda se aventuravam para pegar as bolas de futebol que fatalmente caíam e nela boiavam. Foi assim que descobrimos mais uma similaridade das nossas histórias. Morar com alguém que entendia a estratégia de passar correndo na ponte, além de todas as outras táticas de sobrevivência que se impunham pelo que éramos – meninas pobres e pretas – e já confirmadas pelo tempo, evidenciava uma escolha acertada no dia do fatídico “sim”. Tenho um discurso pronto quando falo sobre a decisão de morarmos juntas, porque naquele dia – que eu adoraria lembrar a data –, ao ler aquele texto – que eu também gostaria de ter ainda hoje –, o convite foi feito muito em virtude de termos origens e necessidades parecidas. Nascidas no subúrbio e na periferia de Salvador, trabalhar no novo centro comercial da cidade exigia atravessar parte de uma rodovia federal – a famosa BR 324 –, o que tornava o deslocamento mais uma problemática para duas garotas, formadas em Direito, que não encontravam na profissão uma paixão. Ouso dizer que essa é a base do nosso casamento, já que nos esbarramos tentando encontrar algum sentido na advocacia, trabalhando voluntariamente numa ONG. Nossos olhos sempre brilharam por arte, e arte parecia estar bem longe do juridiquês. E estava. Eu já não morava tão perto da BR, como antes, mas circunstâncias outras exigiam que fizesse mais uma mudança. Foi aí que disse sim. Há um equilíbrio bonito na nossa relação: eu mato as baratas, ela cuida dos outros animais que frequentemente visitam nossa casa, como micos e passarinhos; eu organizo e verifico os valores enquanto passo os mantimentos no caixa, ela empacota as compras; eu tenho certa veneração em limpar o banheiro e coisas pequenas, ela prefere a faxina da casa. E dificilmente conseguiríamos desempenhar com primor uma dessas tarefas, tão bem desenvolvidas pela outra. Ela é simpática com os vizinhos e eu sigo rabugenta. Não fosse ela, certamente jamais teríamos sido surpreendidas, no meio da pandemia, com uma pizza dada pela vizinha e nem a chamaríamos hoje, carinhosamente, de dona Juju. Alguns ainda seguem nos confundindo, tudo por conta do black power, mesmo eu sendo uns dez centímetros maior, o que ela discorda veementemente, mas é real. Na quarentena não foi diferente, eu aprendi sobre drenagem de plantas, enquanto a casa foi tomada por óleos essenciais, incensos e uma gata chamada Elizabeth, tudo isso capitaneado por ela. Há uma pulsação particular que permite cantarmos juntas “alecrim dourado” e até algumas outras músicas ao mesmo tempo, como um bem concluído exercício para a cena. Existem bordões que são repetidos no nosso cotidiano, até os provenientes de memes, e há um apoio secreto para os dias de banzo e calundu, quando o distanciamento se impõe e enxergar a outra é uma tarefa delicada. Mas nem sempre é equilíbrio. Existe uma fenda nas nossas histórias que nem a ponte sobre o Rio Camurujipe e que cruzou nossas vidas é capaz de dar conta. Aprendemos a passar correndo porque o rio tinha se transformado em esgoto e havia um recado inconsciente de não escorregar porque a insalubridade da queda seria demais para nossas existências. Não poder caminhar devagar sobre uma ponte que cambaleava não seria um marco, se cruzá-la não fosse tão imprescindível. E cruzamos correndo, porque só assim era possível. Não ver o rio deu outro destino aos nossos trajetos, deixando enormes buracos onde sempre só coube poesia. E talvez por conta do dique e da eterna tentativa de nele não cair, tivemos de ver figurino e métrica em letras amorfas da legislação, rindo de quem fala rebuscado sem nada dizer, porque em nossas veias ainda corre o rio e em nossas cabeceiras habitam seus livros e meus personagens favoritos.