Num dia desses de quarentena, descobrimos que uma ponte igualmente ligava nossa infância. Ponte é uma palavra bonita para ser empregada metaforicamente, mas nesse caso não. Crescemos à beira de um esgoto a céu aberto, os famosos diques, e pontes de madeira desgastadas eram passagens necessárias para as famosas ruas de “trás” e ruas da “frente”. Pelos relatos, as pontes pareciam iguais, com enormes espaços entre uma madeira e outra, além dos corroídos pelo tempo, e eram levemente rebaixadas, o que só aumentava o medo de cair naquela água cinza, onde os meninos ainda se aventuravam para pegar as bolas de futebol que fatalmente caíam e nela boiavam. Foi assim que descobrimos mais uma similaridade das nossas histórias. Morar com alguém que entendia a estratégia de passar correndo na ponte, além de todas as outras táticas de sobrevivência que se impunham pelo que éramos – meninas pobres e pretas – e já confirmadas pelo tempo, evidenciava uma escolha acertada no dia do fatídico “sim”. Tenho um discurso pronto quando falo sobre a decisão de morarmos juntas, porque naquele dia – que eu adoraria lembrar a data –, ao ler aquele texto – que eu também gostaria de ter ainda hoje –, o convite foi feito muito em virtude de termos origens e necessidades parecidas. Nascidas no subúrbio e na periferia de Salvador, trabalhar no novo centro comercial da cidade exigia atravessar parte de uma rodovia federal – a famosa BR 324 –, o que tornava o deslocamento mais uma problemática para duas garotas, formadas em Direito, que não encontravam na profissão uma paixão. Ouso dizer que essa é a base do nosso casamento, já que nos esbarramos tentando encontrar algum sentido na advocacia, trabalhando voluntariamente numa ONG. Nossos olhos sempre brilharam por arte, e arte parecia estar bem longe do juridiquês. E estava. Eu já não morava tão perto da BR, como antes, mas circunstâncias outras exigiam que fizesse mais uma mudança. Foi aí que disse sim. Há um equilíbrio bonito na nossa relação: eu mato as baratas, ela cuida dos outros animais que frequentemente visitam nossa casa, como micos e passarinhos; eu organizo e verifico os valores enquanto passo os mantimentos no caixa, ela empacota as compras; eu tenho certa veneração em limpar o banheiro e coisas pequenas, ela prefere a faxina da casa. E dificilmente conseguiríamos desempenhar com primor uma dessas tarefas, tão bem desenvolvidas pela outra. Ela é simpática com os vizinhos e eu sigo rabugenta. Não fosse ela, certamente jamais teríamos sido surpreendidas, no meio da pandemia, com uma pizza dada pela vizinha e nem a chamaríamos hoje, carinhosamente, de dona Juju. Alguns ainda seguem nos confundindo, tudo por conta do black power, mesmo eu sendo uns dez centímetros maior, o que ela discorda veementemente, mas é real. Na quarentena não foi diferente, eu aprendi sobre drenagem de plantas, enquanto a casa foi tomada por óleos essenciais, incensos e uma gata chamada Elizabeth, tudo isso capitaneado por ela. Há uma pulsação particular que permite cantarmos juntas “alecrim dourado” e até algumas outras músicas ao mesmo tempo, como um bem concluído exercício para a cena. Existem bordões que são repetidos no nosso cotidiano, até os provenientes de memes, e há um apoio secreto para os dias de banzo e calundu, quando o distanciamento se impõe e enxergar a outra é uma tarefa delicada. Mas nem sempre é equilíbrio. Existe uma fenda nas nossas histórias que nem a ponte sobre o Rio Camurujipe e que cruzou nossas vidas é capaz de dar conta. Aprendemos a passar correndo porque o rio tinha se transformado em esgoto e havia um recado inconsciente de não escorregar porque a insalubridade da queda seria demais para nossas existências. Não poder caminhar devagar sobre uma ponte que cambaleava não seria um marco, se cruzá-la não fosse tão imprescindível. E cruzamos correndo, porque só assim era possível. Não ver o rio deu outro destino aos nossos trajetos, deixando enormes buracos onde sempre só coube poesia. E talvez por conta do dique e da eterna tentativa de nele não cair, tivemos de ver figurino e métrica em letras amorfas da legislação, rindo de quem fala rebuscado sem nada dizer, porque em nossas veias ainda corre o rio e em nossas cabeceiras habitam seus livros e meus personagens favoritos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário