quinta-feira, 16 de abril de 2020

Travessão



Quando você nasceu, eu te esperava ansiosa pela janelinha da sala de parto do hospital que também nasci. Segui o mesmo rito que foi com sua irmã e acompanhei as contrações de sua mãe que, sempre muito tranquila, só presenciei gritando nesses momentos. Eu escrevo para que um dia você leia e saiba que estávamos no meio de uma pandemia que impossibilitou sua festinha de aniversário. O ano é 2020. O Brasil é governado por um homem que apoia o genocídio e até pretendeu que sua creche voltasse a funcionar, muito embora, àquela oportunidade, o vírus já tivesse causado a morte de mais de quinze mil pessoas ao redor do mundo, número hoje – 15 de abril – bem maior. Existem muitos homens que apoiam esse indivíduo e vários outros que nos matam, simbólica e fisicamente, apenas por sermos mulheres. Convivemos com a desonestidade em vários níveis e seguimos sobrecarregadas inclusive para educar e cuidar das crianças, já que eles julgam ser uma tarefa eminentemente feminina, enquanto descansam seus ombros cansados pelo peso da descaração e do patriarcado. Espero que no futuro já tenhamos avançado um pouco enquanto sociedade e seja mais fácil ter referências masculinas. Tomara, também, que não seja cansativo me ler. Em 2020, era uma prática fazer textões e, mesmo sem olhar no olho, a comunicação, em algum momento que eu não lembro qual, passou a se estabelecer assim. A mim nunca coube analisar o conteúdo deles — dos textões —, se rasos ou não, muito menos agora que faço uso de um para me comunicar com minha sobrinha daqui a quinze anos — o que parece um tempo razoável para que você compreenda meu amor com as doses de ódio quanto à existência que me são particulares.

Embora eu torça para que minhas palavras resistam, confiando na nuvem — que não é aquela do céu, mas também armazena um tanto de coisa —, já não se sabe, dado o desenrolar dos dias, se ela permanecerá existindo e se meu "textão", portanto, sobreviverá. Ou talvez eu esteja dizendo apenas obviedades e você consiga me escutar perfeitamente, tendo tempo ainda de reclamar dos inúmeros travessões que pus no texto, descobrindo aí uma das minhas singelas paixões. A minha pretensão é só que saiba o quanto era amada e que nesse um ano de tantas novidades, você, tendo chegado prematuramente, foi responsável por dar mais cor (e agitação) às nossas vidas, muito pelo fato de já ter nascido com um coração especial. Suas fotos me renderam inúmeras figurinhas no whatsapp e meus amigos falam que você é muito expressiva, o que me enche de orgulho porque seu nariz é igual ao meu: com dois furinhos formando uma bolinha na ponta. Espero termos tempo para encontrar a expressividade do nariz, até porque, na minha infância, um vizinho dizia que guardaria o meu na carteira, o que também pretendo fazer com o seu. Acho que é uma bela forma de termos “algo nosso” e o nariz parece ser providencial. Penso que, agora, posso ter dado informações desnecessárias e falado coisas sem sentido, mas, como te disse, algumas pessoas estão trancadas, em quarentena, temendo os dias que estão por vir.


Há um desejo, quase que secreto, quando olho pela janela e me deparo com a multiplicidade de borboletas e de macaquinhos que passeiam livremente pelos fios elétricos, de que tudo precise ruir para se reconstruir dignamente e em harmonia. O futuro é realmente imprevisível, o passado presunçoso e o presente, silencioso, é cercado de angústia. Por isso te escrevo. É a forma que encontrei, quinze anos depois, de te abraçar com a força do meu desejo de agora. E tenho pra mim que é essa união de esforços, sobretudo de mulheres fortes, que trará a ordem, como hoje acontece em nossa família e amanhã, certamente, será com o mundo. Espero que daí já seja um sonho realizado e a sua existência seja leve, como essa foto, quando você cabia despretensiosamente em nossos braços e alçava o seu primeiro voo. Por ora, vou te dar a mão e ajudar nos primeiros passos, desejando que em 2035 a gente ria das palavras deste texto que caíram em desuso. E que os travessões resistam. Te amo. De sua tia.


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