Lembrar dos meus pés é recordar os sapatos que nunca couberam em membros sempre tão magros. É rememorar as intermináveis andanças pela Calçada – um bairro de nome no mínimo curioso para quem de pés fala –, com a minha mãe, por toda infância, na tentativa de comprar algo que finalmente servisse para mim. Meus pés não gozam de muita admiração da minha parte, tendo eu, até recentemente, começado a cogitar o desequilíbrio do meu corpo por causa do tamanho deles. Uma baita responsabilidade para uma parte sempre muito relegada. Hoje, ouso questionar se o “vai ceder” justifica os apertos e desconfortos iniciais de algo que, apenas depois de muito sofrimento, poderá te servir, como a maioria dos sapatos novos. Foi assim quando ainda era estudante. Lembro de uma sapatilha que me apaixonei. Desde a primeira vez que a experimentei, na ausência da de número 37, ela não coube no pé. Era de um material que, segundo a vendedora, “cederia”. Comprei. Era mais dura que pedra e meus pés pareciam estar embalados com tanta força, como se fossem passar por uma longa viagem e precisassem chegar intactos no destino final. Recorrendo aos truques para que o sapato finalmente cedesse, pus milho e jornal molhados. Repeti os passos por algumas vezes mais. Relutava em entender que aquele sapato jamais caberia e insisti. Por alguma razão besta, eu suportava as feridas e o aperto, numa devoção sem sentido a um sapato de número 36. O fato é que ele nunca coube. Desde a primeira vez. Mesmo com todo o meu esforço e tentativas em alargar, ele permanecia com aquelas paredes duras e opressivas. Ele não coube quando calçada me impediu de andar livremente; nem quando, olhando apenas por fora, imaginei que comigo combinaria e me faria mais bonita. Não coube e me maltratou. Talvez até porque não tinha para onde ir além do solado que não era do meu número. Obviamente. A memória da sapatilha marrom e rosa – quando ainda nem se falava em nude – me persegue. Há uma teimosia, um tanto quanto taurina, que autorizou a insistência em algo que jamais me deixou confortável, como se elementos externos tivessem o condão de alterar a essência daquele sapato, verdadeiro peso disfarçado. Meu corpo teso e imóvel demonstrava isso, embora eu escondesse a dor dos meus pés tão apertados, só finalmente livres na água morna depois de um longo dia. Banhar as feridas não apagava as suas marcas, muito menos as do calcanhar e dos dedos que, de tão dobrados, doíam em se recompor e sentir o chão. Hoje, a despeito dos passos que seguem cambaleantes e quando band aid parece funcionar na adaptação para sapatos novos, há uma memória afetiva em torno daquela sapatilha. Das dores e da insistência, sobretudo. Ter demorado em compreender que aqueles contornos não seriam alterados, me responsabiliza pelos calos que jamais serão desfeitos e ainda machucam. No entanto, saber que o movimento necessário para o sapato caber só faria com que fatalmente ele deixasse de ser o que naturalmente era, me livra da culpa por abandoná-lo e de optar, em tantos momentos, por seguir descalça, como agora.
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