em 13 de setembro de 2014
O encontrei sentado na beira de um precipício. Pequeno e frágil foram os primeiros adjetivos que pensei ao vê-lo tão próximo daquele abismo, mas, logo em seguida, descobriria que eram as palavras que ele mais odiava. Ele chorava, pobre menininho. Chorava uma tristeza que eu não conseguia compreender, sequer escutá-lo, porém ouvir aquele soluço começou a me entristecer também. Perguntei o que se passava. Embora sua fisionomia parecesse bem familiar, não o conhecia, e também não tive medo em parecer invasiva. Sabia que pouco poderia fazer em relação às suas lágrimas (na verdade nunca sabemos o que fazer quando alguém chora), mas ficar parada e imóvel diante daquela situação aumentava a sensação de impotência que eu tanto odiava. Ele não respondeu, me olhou fixamente e indignado como se eu soubesse a resposta e perguntasse apenas para contrariar. Mas eu não sabia. Ora, o que eu deveria saber de alguém que nunca vi na vida? E, ainda, das suas dores, aflições, traumas? Eu poderia ter respeitado o seu momento e simplesmente me ausentado, fazendo parecer que nunca estive ali, mas não. Aquele olhar pouco me intimidou e agora eu já não queria saber o motivo da tristeza, queria ter conhecimento do que, pela sua expressão, eu deveria saber. Novamente, ele nada disse, me fitou, agora bem mais triste, como se toda a sua dor se justificasse. Silenciamos. Por longos minutos olhamos para o rio que corria muitos metros abaixo de nós. Sozinhos. Por alguma razão estávamos ali à beira do abismo. Juntos. "Eu sempre estive aqui", foram as primeiras palavras que ouvi daquela voz forte e doce. E continuou: "Todos os dias. Sempre estive aqui. Escutei todos que por aqui passaram, de todas as personalidades e jeitos. Sempre em silêncio. Não sou muito de falar, prefiro ouvir. Impulsionei os que desejavam voar, pois sabia que eles não morreriam como os olheiros achavam, ao contrário, renasceriam a cada voo e, mesmo que se machucassem aprendendo o ofício, eu estaria por perto para ajudar a cuidar dos machucados; segurei os desacreditados, tomei-os pelo braço e não permiti que se atirassem, pois esses que se jogam sem paixão, também não morrem, mas vivem da maneira mais cruel, condenados à solidão. Alguns não gostavam da minha companhia, se julgavam muito autossuficientes para me reconhecer. Compreensível, assim como os que me supervalorizavam, mas tão rapidamente me esqueciam ao cruzar uma esquina". Começava a entendê-lo. De fato, já havíamos nos encontrado por algumas vezes na vida, em diferentes e inusitadas situações. Depois do que ouvi, não conseguia mais saber o que fazia ali e levantei. Sairia sem despedidas e sem lembrar o que me motivou a estar naquele lugar todo o tempo. "Incomoda, não é?", ouvi enquanto catava os destroços do que eu era, a parte ruim e apodrecida revelada. E ele prosseguiu: "Agora imagina para quem é exaltado como grande e quando revelado causa espanto pelo tamanho? Sim, porque eu posso ser delicado, benevolente, paciente, bondoso, puro, humilde, manso, fraterno, justo, sensato, verdadeiro, constante, forte e fiel, mas não posso ser pequeno. Ou você já ouviu alguém dizer 'Este é o pequeno amor da minha vida'? Pois bem, sou pequeno e choro, pois força e sensibilidade são distintas. Estou nos cheiros que você sente e lembra da primeira grande amiga, da merendeira preferida e do lápis de cor. Sou eu no olhar da pessoa que você acabou de conhecer e te deu o mundo com um sorriso, na proteção que a chuva te dá, na fruta encontrada sem estar no tempo. Sou eu nas almas bondosas que você reconhece até cruzando a faixa de pedestre, um pequeno, às vezes despercebido, esquecido. Fui eu quem te trouxe aqui e, mais uma vez, não fui reconhecido". Nada consegui dizer, eu até tentava me pronunciar, mas as palavras que explicariam o inexplicável me sufocavam, até que desisti de falar. Afastei envergonhada e segui sem olhar para trás, bem distante ainda pude ouvir: "Aquele toque de mão também sou eu!". Sorrimos. Finalmente havíamos encontrado a razão de estarmos ali e em uníssono, como despedida, ainda entre o riso, gritamos:
- Este sorriso também!
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