em primeiro de dezembro de 2015
Então, acabou aqui?
Queria ter tido tempo para dizer as últimas coisas que pensei. Questioná-la pelas aflições que suas palavras me causaram. Falar que não quis mais te ver, que indaguei se deveria realmente ter escutado tudo aquilo e finalmente realizei que não éramos amigas, não é verdade? Não era mais uma das minhas relações que eu fugia para esconder a fragilidade. Você não era um daqueles amigos que eu brigaria por um motivo bobo e depois voltaria morrendo de saudades. Talvez eu (in) conscientemente esperasse que a sua figura, sempre coesa, me autorizasse a ter alguns comportamentos. As autorizações não vieram e os dilemas aumentaram. Sim, caminho três passos e "retrocedo" cinco. Estava parcialmente certa quanto a isso. Nasci de uma frustrada tentativa em religar o presente a um passado feliz, e talvez a minha existência tenha muito disso. Voltar sempre. E não me envergonho. Pelo contrário, na maioria das vezes o que mais busco é voltar. Para casa, para casa de minha alma, para casa dos meus melhores afetos, para dentro. Sempre volto. Se para mim há imprevisão dos dias que estão por vir, há uma certeza constante: voltar. Eu ganho impulso assim. Desse modo estranho é que ganho força - essa força dilatada em lágrimas tão confundida por aí. Ambiciono Vida, nada mais, pois é desse impulso que preciso para que essa sociedade não me mate diariamente. Por isso preciso voltar, passar pelo medo e escuro que ligam a rua à minha casa, subir as escadas correndo, não passar pelo beco estreito em que um caminhão impede a passagem, olhar para trás para me certificar que não há algum estranho, passar a chave no portão, fechar o cadeado, abrir a porta e entrar, para, só assim, depois de chegar ofegante e dormir, retornar à rua para viver. Passar por vias sujas, sentir a condução de um aglomerado humano, ao invés de ser conduzida por um transporte. Correr. Correr. Correr. Correr. Correr. E avançar três passos. Perder a vez, por uma, duas, três, mil rodadas. Parar porque algo estranho à minha vontade não permite que eu ande. Ver o jogo seguindo para os outros, enquanto dizem que é falta de sorte minha. Não, eles trapacearam! Trapacearam descaradamente à minha custa. É por isso que volto. Não sei jogar assim. Volto e cato meus sonhos – sim, aqueles mesmos que me deram Vida, quando acreditaram que uma conturbada relação poderia ser salva – coloco-os no colo e relembro a eles que não retrocedemos, só estamos ganhando força para caminhar livremente, sem medo de sermos paralisados ou postos num tabuleiro qualquer, enganados e silenciados. Eu não sei de jogos, eu só conheço de passos e dos meus, eu entendo bem.
(das jamais enviadas)
Nenhum comentário:
Postar um comentário