Na frente da minha casa há um terreno. As conformações do solo e do tempo não fizeram dele linear. Em períodos frequentes e quando as ondas de calor ou de frio emanam ventos para a parte vermelha do seu mapa, ele enche. Cheio, é impossível atravessar. Não dá pra conceber também a sua profundidade. Eu o chamaria facilmente de rio, mas as suas pequenas dimensões me impedem assim apelidá-lo, talvez em virtude da megalomania de precisar enxergar o mar onde inevitavelmente se debruçaria. Tolice. O terreno fofo, que também não se aplaina quando a água cessa, é sorrateiro e perigoso. Há relatos de ter puxado pernas e braços na rapidez de um tropeção. O terreno disforme quando seco vira engraçado só por se rachar a ponto de escrever em suas linhas palavras vis e xingamentos despropositados. Mas muito discretos, até ilegíveis se esperar um pouco mais. O terreno é um pedaço da casa onde sempre disseram ser impossível fazer fundação. A casa poderia sucumbir sem uma estrutura firme que a mantivesse. E ele era água, lama, solo rachado. Tantas denominações que escapavam à rigidez da engenharia. Era um pedaço tão grande que eu julgava pertencer às dimensões da casa. Não tinha isso na escritura. Nem no registro. Nem na medida que tiraram com a trena. Tanto silêncio em torno do meu inominável terreno, fez com que eu refletisse quando uma andarilha me pediu que fizesse uma festa nele. "Festejar fora de casa", diriam alguns. "Festejar a totalidade dela", retrucaria eu.
sábado, 16 de julho de 2022
quinta-feira, 7 de julho de 2022
numa folha seca eu vi o tempo passar
Tem uma coisa bonita no tempo
Que é a natural cicatrização da sua passagem
O processo de secar as bordas da memória
fazendo moldura
Ou petríficá-la até o primeiro toque
Quando, como planta seca,
Tudo vira pó
O tempo costura palavras de ordem
Até na coisa desidratada
Tesa, incólume
Nem que seja pra tatuar:
Fim
Mas emenda também
Os corpos malemolentes
E suas peles oleosas, espessas
Infindas
O tempo
Aquele verbo fenômeno da natureza
Meio intransitivo
Costura e enlaça o que o cerca
Toda uma humanidade
De coisas e sentimentos
E pessoas
O esperam, o honram ou
Esbravejam
Porque o fio solto
Às vezes vira nó
Que é a natural cicatrização da sua passagem
O processo de secar as bordas da memória
fazendo moldura
Ou petríficá-la até o primeiro toque
Quando, como planta seca,
Tudo vira pó
O tempo costura palavras de ordem
Até na coisa desidratada
Tesa, incólume
Nem que seja pra tatuar:
Fim
Mas emenda também
Os corpos malemolentes
E suas peles oleosas, espessas
Infindas
O tempo
Aquele verbo fenômeno da natureza
Meio intransitivo
Costura e enlaça o que o cerca
Toda uma humanidade
De coisas e sentimentos
E pessoas
O esperam, o honram ou
Esbravejam
Porque o fio solto
Às vezes vira nó
REALmente
A palavra verdade parece coisa não programada
Que chega sem anúncio
Num rigor extremo de uma face calma
Como ultimato
A verdade inegociável
Dona de si
Plena
Saída da boca de homens comuns
Até parece tratado
Que silencia todos os outros
Diálogos
A verdade estampada
Como grito último de uma voz rouca feminina,
por sua vez,
Comporta opinativos
E questões, reuniões e entraves
Até virar desdém
No requinte do trivial
Que é esquecido após eleito o melhor
Passo-a-passo por qualquer um
A verdade que sai desta boca
É só
Que chega sem anúncio
Num rigor extremo de uma face calma
Como ultimato
A verdade inegociável
Dona de si
Plena
Saída da boca de homens comuns
Até parece tratado
Que silencia todos os outros
Diálogos
A verdade estampada
Como grito último de uma voz rouca feminina,
por sua vez,
Comporta opinativos
E questões, reuniões e entraves
Até virar desdém
No requinte do trivial
Que é esquecido após eleito o melhor
Passo-a-passo por qualquer um
A verdade que sai desta boca
É só
ré
O enjoo inconfundível
marca o gosto da boca
e lembra o sobressalto da veia da testa
O estampido de tantos gritos
Entoados em lamentos repetidos
De uma natureza cruel
O corpo arremessado
Por vontade do tirano
Que assim só quis
O passado que se apresenta
Presente borrado e amassado
nas mãos cheias de ferrugem e sangue
São recortes da marcha
que empurra o tempo, molda novos traços
mas é carregada de dor
quando se olha para trás
e lembra o sobressalto da veia da testa
O estampido de tantos gritos
Entoados em lamentos repetidos
De uma natureza cruel
O corpo arremessado
Por vontade do tirano
Que assim só quis
O passado que se apresenta
Presente borrado e amassado
nas mãos cheias de ferrugem e sangue
São recortes da marcha
que empurra o tempo, molda novos traços
mas é carregada de dor
quando se olha para trás
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