Na frente da minha casa há um terreno. As conformações do solo e do tempo não fizeram dele linear. Em períodos frequentes e quando as ondas de calor ou de frio emanam ventos para a parte vermelha do seu mapa, ele enche. Cheio, é impossível atravessar. Não dá pra conceber também a sua profundidade. Eu o chamaria facilmente de rio, mas as suas pequenas dimensões me impedem assim apelidá-lo, talvez em virtude da megalomania de precisar enxergar o mar onde inevitavelmente se debruçaria. Tolice. O terreno fofo, que também não se aplaina quando a água cessa, é sorrateiro e perigoso. Há relatos de ter puxado pernas e braços na rapidez de um tropeção. O terreno disforme quando seco vira engraçado só por se rachar a ponto de escrever em suas linhas palavras vis e xingamentos despropositados. Mas muito discretos, até ilegíveis se esperar um pouco mais. O terreno é um pedaço da casa onde sempre disseram ser impossível fazer fundação. A casa poderia sucumbir sem uma estrutura firme que a mantivesse. E ele era água, lama, solo rachado. Tantas denominações que escapavam à rigidez da engenharia. Era um pedaço tão grande que eu julgava pertencer às dimensões da casa. Não tinha isso na escritura. Nem no registro. Nem na medida que tiraram com a trena. Tanto silêncio em torno do meu inominável terreno, fez com que eu refletisse quando uma andarilha me pediu que fizesse uma festa nele. "Festejar fora de casa", diriam alguns. "Festejar a totalidade dela", retrucaria eu.
Nenhum comentário:
Postar um comentário