sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

ar

Repousa em mim
Um sopro pequeno
Quase miúdo
Que conduz a voz à cabeça
Que arredonda a bexiga murcha
Que atiça a brasa solitária

De tão pequeno
Não apaga a chama
Nem refresca do calor
Não se presta ao assovio
Nem corrompe o som tolo

É menino pequeno
Que não cresceu
Nem acompanhou a idade
Ficou lá, baixinho
Tentando ser grande

Na miudeza resistiu
porque cabia em tudo

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

ofício

Dias muitos, titubeio
A mediocridade
A dúvida
Repousam aqui
Querendo me fazer
Uma qualquer

Nos outros, corriqueiros
Que a lágrima escorre
Lamento não ser comum
Esperneio
E danço com a verborragia
Que me é particular

Triste dizer que a dor me remonta
Nas cólicas doídas
Do pouco saber
E nas palavras tortas
Que vomito atravessadas

Reluto em não ser coisa
Clamo ser muito mais do que gente
E no entremeio da carne exposta
Nos dias que poesia me é chão
Comida e alento
Agradeço porque sou artista

drops

O prazer se apequenando
Ali na língua
Gosto se esvaindo
Gozo misturado na saliva

Nunca senti

Poder estava nos dentes
Que quebravam o doce
Em pedaços quase macerados
Acabados

Na facilidade de um analgésico
Com os efeitos colaterais do corticóide
Pura droga
De rápida absorção

Práxis

Querer era outro tópico
Que não cabia na necessidade
Do corpo diagnosticado
Com pressa

As vias orais
Perplexas, intangíveis e capciosas
Eram túnel obsoleto
Que só transitavam caminhões
De carga

sábado, 16 de julho de 2022

Celebrar

Na frente da minha casa há um terreno. As conformações do solo e do tempo não fizeram dele linear. Em períodos frequentes e quando as ondas de calor ou de frio emanam ventos para a parte vermelha do seu mapa, ele enche. Cheio, é impossível atravessar. Não dá pra conceber também a sua profundidade. Eu o chamaria facilmente de rio, mas as suas pequenas dimensões me impedem assim apelidá-lo, talvez em virtude da megalomania de precisar enxergar o mar onde inevitavelmente se debruçaria. Tolice. O terreno fofo, que também não se aplaina quando a água cessa, é sorrateiro e perigoso. Há relatos de ter puxado pernas e braços na rapidez de um tropeção. O terreno disforme quando seco vira engraçado só por se rachar a ponto de escrever em suas linhas palavras vis e xingamentos despropositados. Mas muito discretos, até ilegíveis se esperar um pouco mais. O terreno é um pedaço da casa onde sempre disseram ser impossível fazer fundação. A casa poderia sucumbir sem uma estrutura firme que a mantivesse. E ele era água, lama, solo rachado. Tantas denominações que escapavam à rigidez da engenharia. Era um pedaço tão grande que eu julgava pertencer às dimensões da casa. Não tinha isso na escritura. Nem no registro. Nem na medida que tiraram com a trena. Tanto silêncio em torno do meu inominável terreno, fez com que eu refletisse quando uma andarilha me pediu que fizesse uma festa nele. "Festejar fora de casa", diriam alguns. "Festejar a totalidade dela", retrucaria eu.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

numa folha seca eu vi o tempo passar

Tem uma coisa bonita no tempo
Que é a natural cicatrização da sua passagem

O processo de secar as bordas da memória
fazendo moldura

Ou petríficá-la até o primeiro toque
Quando, como planta seca,
Tudo vira pó

O tempo costura palavras de ordem
Até na coisa desidratada
Tesa, incólume
Nem que seja pra tatuar:
Fim

Mas emenda também
Os corpos malemolentes
E suas peles oleosas, espessas
Infindas

O tempo
Aquele verbo fenômeno da natureza
Meio intransitivo
Costura e enlaça o que o cerca

Toda uma humanidade
De coisas e sentimentos
E pessoas
O esperam, o honram ou
Esbravejam
Porque o fio solto
Às vezes vira nó

 


REALmente

A palavra verdade parece coisa não programada
Que chega sem anúncio
Num rigor extremo de uma face calma
Como ultimato

A verdade inegociável
Dona de si
Plena
Saída da boca de homens comuns
Até parece tratado
Que silencia todos os outros
Diálogos

A verdade estampada
Como grito último de uma voz rouca feminina,
por sua vez,
Comporta opinativos
E questões, reuniões e entraves
Até virar desdém

No requinte do trivial
Que é esquecido após eleito o melhor
Passo-a-passo por qualquer um
A verdade que sai desta boca
É só


O enjoo inconfundível
marca o gosto da boca
e lembra o sobressalto da veia da testa

O estampido de tantos gritos
Entoados em lamentos repetidos
De uma natureza cruel

O corpo arremessado
Por vontade do tirano
Que assim só quis

O passado que se apresenta
Presente borrado e amassado
nas mãos cheias de ferrugem e sangue

São recortes da marcha
que empurra o tempo, molda novos traços
mas é carregada de dor
quando se olha para trás