quinta-feira, 13 de novembro de 2014

generosidade

em 13 de novembro de 2014

Ele abria e fechava as portas e janelas daquele prédio velho, um tímido e simpático homem. Naquela tarde, ele me emprestou o seu sorriso e, como se fosse tudo o que sabia fazer, com muito profissionalismo, também abriu o que eu havia trancado naquele nublado dia. Ela, poeta e amiga, me emprestou as doces palavras que tão bem abrilhantam sua alma. Como se tivesse em frente ao espelho, elas diziam de mim, mas de uma ternura que eu não possuía, igualmente cedida naquela noite amarga. Respirei extasiada com tanta bondade, tem gente que é tão generosa que nos empresta vida.

domingo, 12 de outubro de 2014

Doce sentido

em 12 de abril de 2014

Fomos apresentadas muito jovens, eu mal sabia pronunciar a palavra caroço, mas desde ali já era amor. Fiquei encantada com o cuidado que receberam meu cabelo e meu sono, à época já tão rebeldes. Vejo a distância que se estabeleceu, mas perceber que a ponte permanece intocada como há quatorze anos, não me faz triste. Volta e meia sinto o cheiro daquela casa, a casa que me apresentou o que de mais fraterno eu poderia encontrar. Com pouco esforço ainda sinto o beijo na testa e escuto o sotaque das suaves palavras. Mas é o olfato, o meu doce sentido, todas as vezes que tem um cheiro entranhado no meu corpo, na minha roupa e nas minhas coisas, que me remete à felicidade tão pouco compreendida naquele tempo. Foi lá que aprendi e, até hoje, por ele sigo, sem medo, com um sorriso imenso ao me deparar com os vestígios de alguém em mim.

sábado, 13 de setembro de 2014

Carta ao pequeno

em 13 de setembro de 2014

O encontrei sentado na beira de um precipício. Pequeno e frágil foram os primeiros adjetivos que pensei ao vê-lo tão próximo daquele abismo, mas, logo em seguida, descobriria que eram as palavras que ele mais odiava. Ele chorava, pobre menininho. Chorava uma tristeza que eu não conseguia compreender, sequer escutá-lo, porém ouvir aquele soluço começou a me entristecer também. Perguntei o que se passava. Embora sua fisionomia parecesse bem familiar, não o conhecia, e também não tive medo em parecer invasiva. Sabia que pouco poderia fazer em relação às suas lágrimas (na verdade nunca sabemos o que fazer quando alguém chora), mas ficar parada e imóvel diante daquela situação aumentava a sensação de impotência que eu tanto odiava. Ele não respondeu, me olhou fixamente e indignado como se eu soubesse a resposta e perguntasse apenas para contrariar. Mas eu não sabia. Ora, o que eu deveria saber de alguém que nunca vi na vida? E, ainda, das suas dores, aflições, traumas? Eu poderia ter respeitado o seu momento e simplesmente me ausentado, fazendo parecer que nunca estive ali, mas não. Aquele olhar pouco me intimidou e agora eu já não queria saber o motivo da tristeza, queria ter conhecimento do que, pela sua expressão, eu deveria saber. Novamente, ele nada disse, me fitou, agora bem mais triste, como se toda a sua dor se justificasse. Silenciamos. Por longos minutos olhamos para o rio que corria muitos metros abaixo de nós. Sozinhos. Por alguma razão estávamos ali à beira do abismo. Juntos. "Eu sempre estive aqui", foram as primeiras palavras que ouvi daquela voz forte e doce. E continuou: "Todos os dias. Sempre estive aqui. Escutei todos que por aqui passaram, de todas as personalidades e jeitos. Sempre em silêncio. Não sou muito de falar, prefiro ouvir. Impulsionei os que desejavam voar, pois sabia que eles não morreriam como os olheiros achavam, ao contrário, renasceriam a cada voo e, mesmo que se machucassem aprendendo o ofício, eu estaria por perto para ajudar a cuidar dos machucados; segurei os desacreditados, tomei-os pelo braço e não permiti que se atirassem, pois esses que se jogam sem paixão, também não morrem, mas vivem da maneira mais cruel, condenados à solidão. Alguns não gostavam da minha companhia, se julgavam muito autossuficientes para me reconhecer. Compreensível, assim como os que me supervalorizavam, mas tão rapidamente me esqueciam ao cruzar uma esquina". Começava a entendê-lo. De fato, já havíamos nos encontrado por algumas vezes na vida, em diferentes e inusitadas situações. Depois do que ouvi, não conseguia mais saber o que fazia ali e levantei. Sairia sem despedidas e sem lembrar o que me motivou a estar naquele lugar todo o tempo. "Incomoda, não é?", ouvi enquanto catava os destroços do que eu era, a parte ruim e apodrecida revelada. E ele prosseguiu: "Agora imagina para quem é exaltado como grande e quando revelado causa espanto pelo tamanho? Sim, porque eu posso ser delicado, benevolente, paciente, bondoso, puro, humilde, manso, fraterno, justo, sensato, verdadeiro, constante, forte e fiel, mas não posso ser pequeno. Ou você já ouviu alguém dizer 'Este é o pequeno amor da minha vida'? Pois bem, sou pequeno e choro, pois força e sensibilidade são distintas. Estou nos cheiros que você sente e lembra da primeira grande amiga, da merendeira preferida e do lápis de cor. Sou eu no olhar da pessoa que você acabou de conhecer e te deu o mundo com um sorriso, na proteção que a chuva te dá, na fruta encontrada sem estar no tempo. Sou eu nas almas bondosas que você reconhece até cruzando a faixa de pedestre, um pequeno, às vezes despercebido, esquecido. Fui eu quem te trouxe aqui e, mais uma vez, não fui reconhecido". Nada consegui dizer, eu até tentava me pronunciar, mas as palavras que explicariam o inexplicável me sufocavam, até que desisti de falar. Afastei envergonhada e segui sem olhar para trás, bem distante ainda pude ouvir: "Aquele toque de mão também sou eu!". Sorrimos. Finalmente havíamos encontrado a razão de estarmos ali e em uníssono, como despedida, ainda entre o riso, gritamos:
- Este sorriso também!

domingo, 27 de julho de 2014

aquela

em 27 de julho de 2014


Aquela palavra. Aquela palavra não dita que sepultou aquele, também, amor não pronunciado. Muitas vezes sufocada, tatuada em braços de cadeiras, corpos e mares. Migrou tardiamente para as folhas amareladas daqueles espirais infantis. Virou canção, mantra, poema. Revirou os contos, achou comum o que chamavam de platônico. Padeceu todas aquelas dores banais, frutos do silêncio. Revirou a cama, murmurada nos terrores noturnos. Sofreu de uma vez todos aqueles amores velados. Por várias vezes, por vários dias e noites. Foi dita em frente ao espelho, embaixo do chuveiro e sussurrada ao lado do desconhecido no ônibus. Esquecida nas ocasiões cruciais, rejeitada ante aquele destino tão óbvio e previsível. Ficou presa na reação estranha de todos aqueles órgãos que insistiam em palpitar, conquanto ela precisava apenas ser dita. E gritou. Tão alto que pôde ouvir-se e compreender-se. A partir de então, jamais calou. Disse dos gostos e desgostos, colecionou amores e afogou todos quando assim o quis. Foi ouvida quando existiu saudade e integrou as mais bobas e sinceras cartas. Se ressignificou.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

domingo, 18 de maio de 2014

Da pressa

em 17 de maio de 2014

Mais cedo, enquanto subia a escadaria da Lapa, afobada, com minha mochilinha nas costas e fones no ouvido, ao passar por uma mocinha, pouco mais a frente, vivi uma situação inusitada. Ela, que não subia tão rapidamente, assustada com aquela minha agonia (assim imagino), puxou sua bolsa e a segurou fortemente. Naqueles rápidos segundos, não sei por qual razão, lembrei da cara que havia feito quando, algumas semanas atrás, tinha sido chamada de Mário (sim, Mário!) e da delicadeza da minha resposta. Só que hoje eu não tinha tempo pra negar e nem queria.

Ela tinha medo, eu tenho pressa.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Sobre macacos, bananas e oportunismo...

em 28 de abril de 2014

No ensino fundamental, fui surpreendida ao ouvir um professor de educação física se referir a um colega chamando-o de macaco. Afora os risinhos de alguns, o sentimento daquelas crianças, em sua maioria, pobres, pretas e residentes de São Caetano foi de profunda perplexidade. Tínhamos a exata dimensão do quão grave era a atitude daquele dito educador. Não lembro qual atitude foi tomada pela escola, sei apenas que ele, insuportavelmente, continuou sendo meu professor por todos os anos que continuei lá estudando. Já maior, num restaurante, com uma amiga também pobre e preta, fui exaustivamente interpelada pelo gerente do estabelecimento, a ponto de me sentir constrangida por estar naquele espaço. Não lembro qual atitude foi tomada pelos presentes, que evidentemente perceberam a atenção especial que recebemos, sei que saímos de lá com o sentimento de que nunca deveríamos ter entrado naquele lugar. São apenas dois casos (separados por um lapso de aproximadamente quinze anos), de inúmeros que poderia citar e que também aconteceram comigo, com pessoas próximas e outras não tão próximas assim. E então, vocês, que estiveram silentes todo este tempo, evitando o barulho, mentindo para nossas crianças, fazendo-as acreditar no inacreditável, inventam dizer que somos todos macacos e que uma banana (seja lá literalmente, metaforicamente ou qualquer “mente” dessa leviandade toda que vocês comercial(mente) estão espalhando) nos representa? Meus amigos, além da profunda ausência de conhecimento de causa, falta vergonha na cara.

Não somos todos macacos. Hashtags e bananas não me representam.

domingo, 6 de abril de 2014

A Deus (pedaço)

em 31 de julho de 2013

Décima primeira regra: não permita que o aceno do adeus signifique partida, pois, se somos muitos, assim como um feixe de palitos qualquer, já não podemos partir com tanta facilidade.

(fragmento de carta que marca o encerramento de um ciclo e o início de outro maior)