Eu queria ter tido uma forma melhor de te desejar parabéns. Queria que estivessem sorrisos sinceros nos nossos rostos, um abraço apertado e nenhum peso nas nossas costas para que, quem sabe, como naquele código antigo, fosse possível reviver o que um dia tivemos. Entre nós, agora, tem muito mais de culpa, do que de amor. Nossos olhos caídos carregam a dor de nossas almas depois da forma cruel que nos maltratamos. Nossas palavras, tão mais contidas, redesenham a única forma que temos de ser ouvidas: camuflando o que realmente gostaríamos de dizer, numa tentativa de não nos afastarmos bem mais.
Naquele oito de janeiro, ao te ver tão forte e amistosa, eu queria ter dito do meu amor e do quanto esses pedaços de mim que tanto nego têm de você. Queria ter dito que entrar naquele lugar foi difícil, porque dói imaginar ele, um dia, sem você e do quanto isso pode me esvaziar ainda mais por dentro. Eu queria demorar naquele abraço e chorar toda a dor de sua ausência. Falar que seu cuidado me constituiu como pessoa e essa forma de amar é muito legítima. Queria ter agradecido sua coragem ao me gerar e por acreditar que poderia ser uma mulher digna e inteira.
Naquele abraço encurtado eu nada disse, muito embora minha vontade tenha sido a de desaguar toda mágoa para que, enfim, pudéssemos dar o segundo passo. Eu queria ter ouvido suas frases prontas e tão reais que confortavam minha alma. Mas estávamos ali, tentando recriar essa ponte de afeto que foi quebrada por preconceitos e expectativas frustradas. Uma cisão tão forte que sequer nos deixou de pé.
Temos reaprendido a andar num chão de terra fofa, sem calçados e avaliando o caminho para não machucar aquele calo antigo e sofrer de novo. Ele ainda é muito recente e dói a cada toque não calculado. Por isso a cautela. Se corro das memórias doloridas, também me esbarro no chão, porque é muito novo precisar de calma nos pés depois de crescido. E é muito bonito poder crescer de fora para dentro, mudando as lentes, consertando a coluna e tendo a consciência que jamais será longa essa distância que hoje entre nós impera, porque há um cordão que continuará nos ligando anos afora.
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