O corpo artista vulnerado
Perseguido desde a tenra idade
Pelo eu
ou
O outro
Que gerou e
Disse amar
A cabeça nua
Violentada por quem atribuiu
Doença
Sofrimento
Dor
Articulações travadas
Incapazes de expressar
Afeto
Personalidade
Existência
Foi o corpo castrado
Endurecido
Que nadou com braços e
Pés tesos
E afundou
segunda-feira, 4 de outubro de 2021
sexta-feira, 27 de agosto de 2021
espelho
O dedo que enrolava o fio, tal como o meu, trazia lembranças. A palavra dengo, ali exposta, também. Mas eram os pontos pretos na unha e a taça despretensiosa que me convidavam. A mão delicada. O drink visivelmente adocicado. O fio não acessado, o cacho não desfeito. Estava ali meu apetite por não rupturas e a minha escolha por espelhos. ‘No mato, o medo da gente se sai ao inteiro, um medo propositado’. Quando cerrei os olhos, era visguenta a folha diante de mim. Mas de um visgo particular, próximo. Um verde de cura, pensei. Mas precisava ser de esquecimento. E cura apaga lembrança e textura de cabelo? Ou só cicatriza e fica feito tatuagem no braço esquerdo? Cura deve ter a ver com barco que a gente pega pra povoado pouco habitado, deixando do lado de cá toda a confusão. E é o sal que, entranhado na pele, retira todo insosso da existência carregada até ali. A areia subindo, formando casca. O sol queimando o pensamento. E o mar aberto só pra anunciar coisa boa. É de cura que ele é feito. Mas é de memória que os olhos ainda desaguam.
domingo, 15 de agosto de 2021
um texto sobre tempo e lições esquecidas
29/09/2017 11:40 Faz tempo que não surge uma ponta de ideia, pra fazer esse mar da minha existência escrever numas pedras velhas o que tem me ocorrido, marcando ali, como o tempo, a rusgas e benesses do movimento da vida. Meu corpo e eu mudamos de casa. Temos aprendido a ser um só. Fincando os pés na areia. Puxando a cabeça que volta e meia esvazia como um balão e sai vagando por lugares incertos. Acariciando o peito pro coração, quem sabe, ter mais compasso. Treinando os olhos pra que eles estejam sintonizados com o resto. Olhando em volta e dentro. Confrontando. Juntando os pedaços. Engraçado é que eu não tenho um espelho grande que me veja por completo. Tenho pedaços deles que têm me formado, ou me ajudado a me formar. Nada disso até ontem conseguiu ser dito or ga ni za da men te. O medo. O outro. A ladeira. Os agentes. O medo. A descoberta. A chave. O medo. O colo. A água. O mato. O medo. Nada. Ontem eu ouvi algo muito bonito, dizia que permanecíamos s...
15/08/2021 21:04 E foi assim que quatro anos depois, e sem mais lembrar do algo bonito que ouvi, constatei que tudo que passou fez morada pra boniteza que habita aqui. Dentro.
massa corrida ou outras coisas brancas indefinidas
Quando enfiei a lâmina, primeiro saltou a capa branca. Na ânsia de alcançar o centro, esqueci de todas as camadas que precederiam. Existia ali um material espesso branco, que não era o reboco, nem o bloco, fazendo mais distante o fundo do mais fundo daquela parede. Lembrava minha pele que as aleatórias alergias descascavam rapidamente e, apenas cansada, resolvia sangrar. Era mão de tinta branca endurecida que apagou a sujeira? Era massa corrida que aplanou as imperfeições? Que era aquele pedaço estranho, pálido, que dizia "muito bem, mas você não alcançou o que pretendia"? Que era aquele aviso que enunciava o corte, mas, por essência, se permitia confundir? Havia o filete. A cicatriz. A deformidade. Mas o pedaço de coisa branca camuflava a agressividade da coisa cortante que a atingiu. E silenciosa ficava ali, duvidosa, cambaleante. Pedaço de coisa qualquer, não definida, não nomeada. Olhei o dedo indicador direito que já sangrava, mas, rodeado de coisa branca, lembrei: era pele morta que chamavam.
terça-feira, 18 de maio de 2021
ensaio sobre um te amo
dos poucos minutos que a vida rouba
meu sono paralisa e respeita o rito
é que a palavra engasgada entre os sustos
ensaia sair da boca
e já não mais envergonhada
balbucia o que sã não podia ser dito
o inconsciente que muito grita
o corpo que tanto treme
os olhos que se abrem repetidamente
silenciam
o sonho bonito pausado
ou o sono tranquilo inaugurado
a letargia que demorava a chegar
alertam
é madrugada
e já não se sabe se é tarde
ou muito cedo pra dizer
te amo
meu sono paralisa e respeita o rito
é que a palavra engasgada entre os sustos
ensaia sair da boca
e já não mais envergonhada
balbucia o que sã não podia ser dito
o inconsciente que muito grita
o corpo que tanto treme
os olhos que se abrem repetidamente
silenciam
o sonho bonito pausado
ou o sono tranquilo inaugurado
a letargia que demorava a chegar
alertam
é madrugada
e já não se sabe se é tarde
ou muito cedo pra dizer
te amo
sábado, 10 de abril de 2021
o fio da vida de maria
Maria costurava. No meio de todo o caos que a sua existência lhe conferia, era o ofício herdado da mãe que alimentava os dias e a dispensa. Quando se viu desempregada e depois da trágica morte do marido, a máquina velha e acumulada de poeira no quartinho passou a ser o seu refúgio. O som ruidoso e pisar no pedal lhe transportavam para uma estrada em linha reta tal qual os pontos que saíam no tecido. Pensava nos carros e em quem os dirigia, mas as bainhas intermináveis nas calças dos trabalhadores da construção civil logo lhe lembravam do contrário: “Dirigir um carro? Isso lá é possível pra gente como eu...”, resmungava antes de desatar a rir e pisar com força no que seria o seu acelerador imaginário. Sua vida de remendos parecia não comportar sonhos, nem os mais banais. Costurava noites adentro, temendo o dia de não mais suportar o corpo cada vez mais corroído de artrose. Era o único ponto que sabia não poder dar. De todas as texturas e cores que lhe habitavam, até ali, sua vida era um completo alinhavo sem nó, a ponto de se desfazer sem qualquer esforço. Era com desimportância que Maria olhava ao redor, em mais uma casa que poderia pagar o aluguel. A frustração era o que lhe guiava desde quando precisou abandonar a escola e nunca mais retornou. Vieram o casamento, a casa e os filhos e só depois de se ver novamente sozinha na vida, é que, com a costura, se lembrou do prazer de sentar numa cadeira e aprender. A máquina lhe ensinava tanto, mas pregar botões parecia ser mais fácil do que deixar brotar qualquer afeto. Foi a orfandade e a viuvez que fizeram de Maria uma colcha de tecidos esgarçados, um lençol que pouco agasalhou seus rebentos, que tão logo crescidos se perderam no mundo como carretel vazio. A linha fina que lhe costurou não suportou a agressividade de sua história, e no eterno arrebentar de ciclos, Maria entendia que sem um nó era impossível segurar uma costura. Os apertos da vida a impediam de olhar o verso e ver onde a agulha fincou o precioso ponto. E de corte em corte percebeu que poderia ser um belo vestido ou até uma camisa de botão, mas o papel que a modelou jamais se concretizou no tecido.
sábado, 13 de março de 2021
1.760
Pousou o silêncio
E com ele um cheiro forte
de carne apodrecida
Estaria ela morta
Ou seria a casa revirada
Que anunciava falta de asseio?
A penumbra se espalhou lentamente
Congestionou cômodos
Embaçou os olhos
Poderia ela ter posto vendas
Esboçado gritar
Mas quando decidiu
Estava submersa
O cheiro e o medo agora
Entranhavam o corpo
Enquanto sons do lado de fora
Eram ouvidos
Se comboio ou comemoração
A incerteza pairava nas horas
E no sem-número de dias
O cenário fúnebre que se instaurava
Confundia o que era vida
E se mortos todos já não estavam
E com ele um cheiro forte
de carne apodrecida
Estaria ela morta
Ou seria a casa revirada
Que anunciava falta de asseio?
A penumbra se espalhou lentamente
Congestionou cômodos
Embaçou os olhos
Poderia ela ter posto vendas
Esboçado gritar
Mas quando decidiu
Estava submersa
O cheiro e o medo agora
Entranhavam o corpo
Enquanto sons do lado de fora
Eram ouvidos
Se comboio ou comemoração
A incerteza pairava nas horas
E no sem-número de dias
O cenário fúnebre que se instaurava
Confundia o que era vida
E se mortos todos já não estavam
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