sexta-feira, 27 de agosto de 2021

espelho

O dedo que enrolava o fio, tal como o meu, trazia lembranças. A palavra dengo, ali exposta, também. Mas eram os pontos pretos na unha e a taça despretensiosa que me convidavam. A mão delicada. O drink visivelmente adocicado. O fio não acessado, o cacho não desfeito. Estava ali meu apetite por não rupturas e a minha escolha por espelhos. ‘No mato, o medo da gente se sai ao inteiro, um medo propositado’. Quando cerrei os olhos, era visguenta a folha diante de mim. Mas de um visgo particular, próximo. Um verde de cura, pensei. Mas precisava ser de esquecimento. E cura apaga lembrança e textura de cabelo? Ou só cicatriza e fica feito tatuagem no braço esquerdo? Cura deve ter a ver com barco que a gente pega pra povoado pouco habitado, deixando do lado de cá toda a confusão. E é o sal que, entranhado na pele, retira todo insosso da existência carregada até ali. A areia subindo, formando casca. O sol queimando o pensamento. E o mar aberto só pra anunciar coisa boa. É de cura que ele é feito. Mas é de memória que os olhos ainda desaguam.

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