Quando enfiei a lâmina, primeiro saltou a capa branca. Na ânsia de alcançar o centro, esqueci de todas as camadas que precederiam. Existia ali um material espesso branco, que não era o reboco, nem o bloco, fazendo mais distante o fundo do mais fundo daquela parede. Lembrava minha pele que as aleatórias alergias descascavam rapidamente e, apenas cansada, resolvia sangrar. Era mão de tinta branca endurecida que apagou a sujeira? Era massa corrida que aplanou as imperfeições? Que era aquele pedaço estranho, pálido, que dizia "muito bem, mas você não alcançou o que pretendia"? Que era aquele aviso que enunciava o corte, mas, por essência, se permitia confundir? Havia o filete. A cicatriz. A deformidade. Mas o pedaço de coisa branca camuflava a agressividade da coisa cortante que a atingiu. E silenciosa ficava ali, duvidosa, cambaleante. Pedaço de coisa qualquer, não definida, não nomeada. Olhei o dedo indicador direito que já sangrava, mas, rodeado de coisa branca, lembrei: era pele morta que chamavam.
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