O dedo que enrolava o fio, tal como o meu, trazia lembranças. A palavra dengo, ali exposta, também. Mas eram os pontos pretos na unha e a taça despretensiosa que me convidavam. A mão delicada. O drink visivelmente adocicado. O fio não acessado, o cacho não desfeito. Estava ali meu apetite por não rupturas e a minha escolha por espelhos. ‘No mato, o medo da gente se sai ao inteiro, um medo propositado’. Quando cerrei os olhos, era visguenta a folha diante de mim. Mas de um visgo particular, próximo. Um verde de cura, pensei. Mas precisava ser de esquecimento. E cura apaga lembrança e textura de cabelo? Ou só cicatriza e fica feito tatuagem no braço esquerdo? Cura deve ter a ver com barco que a gente pega pra povoado pouco habitado, deixando do lado de cá toda a confusão. E é o sal que, entranhado na pele, retira todo insosso da existência carregada até ali. A areia subindo, formando casca. O sol queimando o pensamento. E o mar aberto só pra anunciar coisa boa. É de cura que ele é feito. Mas é de memória que os olhos ainda desaguam.
sexta-feira, 27 de agosto de 2021
domingo, 15 de agosto de 2021
um texto sobre tempo e lições esquecidas
29/09/2017 11:40 Faz tempo que não surge uma ponta de ideia, pra fazer esse mar da minha existência escrever numas pedras velhas o que tem me ocorrido, marcando ali, como o tempo, a rusgas e benesses do movimento da vida. Meu corpo e eu mudamos de casa. Temos aprendido a ser um só. Fincando os pés na areia. Puxando a cabeça que volta e meia esvazia como um balão e sai vagando por lugares incertos. Acariciando o peito pro coração, quem sabe, ter mais compasso. Treinando os olhos pra que eles estejam sintonizados com o resto. Olhando em volta e dentro. Confrontando. Juntando os pedaços. Engraçado é que eu não tenho um espelho grande que me veja por completo. Tenho pedaços deles que têm me formado, ou me ajudado a me formar. Nada disso até ontem conseguiu ser dito or ga ni za da men te. O medo. O outro. A ladeira. Os agentes. O medo. A descoberta. A chave. O medo. O colo. A água. O mato. O medo. Nada. Ontem eu ouvi algo muito bonito, dizia que permanecíamos s...
15/08/2021 21:04 E foi assim que quatro anos depois, e sem mais lembrar do algo bonito que ouvi, constatei que tudo que passou fez morada pra boniteza que habita aqui. Dentro.
massa corrida ou outras coisas brancas indefinidas
Quando enfiei a lâmina, primeiro saltou a capa branca. Na ânsia de alcançar o centro, esqueci de todas as camadas que precederiam. Existia ali um material espesso branco, que não era o reboco, nem o bloco, fazendo mais distante o fundo do mais fundo daquela parede. Lembrava minha pele que as aleatórias alergias descascavam rapidamente e, apenas cansada, resolvia sangrar. Era mão de tinta branca endurecida que apagou a sujeira? Era massa corrida que aplanou as imperfeições? Que era aquele pedaço estranho, pálido, que dizia "muito bem, mas você não alcançou o que pretendia"? Que era aquele aviso que enunciava o corte, mas, por essência, se permitia confundir? Havia o filete. A cicatriz. A deformidade. Mas o pedaço de coisa branca camuflava a agressividade da coisa cortante que a atingiu. E silenciosa ficava ali, duvidosa, cambaleante. Pedaço de coisa qualquer, não definida, não nomeada. Olhei o dedo indicador direito que já sangrava, mas, rodeado de coisa branca, lembrei: era pele morta que chamavam.
Assinar:
Comentários (Atom)