sexta-feira, 30 de setembro de 2022
ofício
A mediocridade
A dúvida
Repousam aqui
Querendo me fazer
Uma qualquer
Nos outros, corriqueiros
Que a lágrima escorre
Lamento não ser comum
Esperneio
E danço com a verborragia
Que me é particular
Triste dizer que a dor me remonta
Nas cólicas doídas
Do pouco saber
E nas palavras tortas
Que vomito atravessadas
Reluto em não ser coisa
Clamo ser muito mais do que gente
E no entremeio da carne exposta
Nos dias que poesia me é chão
Comida e alento
Agradeço porque sou artista
drops
Ali na língua
Gosto se esvaindo
Gozo misturado na saliva
Nunca senti
Poder estava nos dentes
Que quebravam o doce
Em pedaços quase macerados
Acabados
Na facilidade de um analgésico
Com os efeitos colaterais do corticóide
Pura droga
De rápida absorção
Práxis
Querer era outro tópico
Que não cabia na necessidade
Do corpo diagnosticado
Com pressa
As vias orais
Perplexas, intangíveis e capciosas
Eram túnel obsoleto
Que só transitavam caminhões
De carga
sábado, 16 de julho de 2022
Celebrar
Na frente da minha casa há um terreno. As conformações do solo e do tempo não fizeram dele linear. Em períodos frequentes e quando as ondas de calor ou de frio emanam ventos para a parte vermelha do seu mapa, ele enche. Cheio, é impossível atravessar. Não dá pra conceber também a sua profundidade. Eu o chamaria facilmente de rio, mas as suas pequenas dimensões me impedem assim apelidá-lo, talvez em virtude da megalomania de precisar enxergar o mar onde inevitavelmente se debruçaria. Tolice. O terreno fofo, que também não se aplaina quando a água cessa, é sorrateiro e perigoso. Há relatos de ter puxado pernas e braços na rapidez de um tropeção. O terreno disforme quando seco vira engraçado só por se rachar a ponto de escrever em suas linhas palavras vis e xingamentos despropositados. Mas muito discretos, até ilegíveis se esperar um pouco mais. O terreno é um pedaço da casa onde sempre disseram ser impossível fazer fundação. A casa poderia sucumbir sem uma estrutura firme que a mantivesse. E ele era água, lama, solo rachado. Tantas denominações que escapavam à rigidez da engenharia. Era um pedaço tão grande que eu julgava pertencer às dimensões da casa. Não tinha isso na escritura. Nem no registro. Nem na medida que tiraram com a trena. Tanto silêncio em torno do meu inominável terreno, fez com que eu refletisse quando uma andarilha me pediu que fizesse uma festa nele. "Festejar fora de casa", diriam alguns. "Festejar a totalidade dela", retrucaria eu.
quinta-feira, 7 de julho de 2022
numa folha seca eu vi o tempo passar
Que é a natural cicatrização da sua passagem
O processo de secar as bordas da memória
fazendo moldura
Ou petríficá-la até o primeiro toque
Quando, como planta seca,
Tudo vira pó
O tempo costura palavras de ordem
Até na coisa desidratada
Tesa, incólume
Nem que seja pra tatuar:
Fim
Mas emenda também
Os corpos malemolentes
E suas peles oleosas, espessas
Infindas
O tempo
Aquele verbo fenômeno da natureza
Meio intransitivo
Costura e enlaça o que o cerca
Toda uma humanidade
De coisas e sentimentos
E pessoas
O esperam, o honram ou
Esbravejam
Porque o fio solto
Às vezes vira nó
REALmente
Que chega sem anúncio
Num rigor extremo de uma face calma
Como ultimato
A verdade inegociável
Dona de si
Plena
Saída da boca de homens comuns
Até parece tratado
Que silencia todos os outros
Diálogos
A verdade estampada
Como grito último de uma voz rouca feminina,
por sua vez,
Comporta opinativos
E questões, reuniões e entraves
Até virar desdém
No requinte do trivial
Que é esquecido após eleito o melhor
Passo-a-passo por qualquer um
A verdade que sai desta boca
É só
ré
e lembra o sobressalto da veia da testa
O estampido de tantos gritos
Entoados em lamentos repetidos
De uma natureza cruel
O corpo arremessado
Por vontade do tirano
Que assim só quis
O passado que se apresenta
Presente borrado e amassado
nas mãos cheias de ferrugem e sangue
São recortes da marcha
que empurra o tempo, molda novos traços
mas é carregada de dor
quando se olha para trás
terça-feira, 15 de fevereiro de 2022
hoje jaz uma poeta
melancolia
me apelidaram de gente
naquela rima boba
de pressa e agonia
é que eu criei o poema sem métrica
mais dolorido que existiu
e sem jeito
as palavras encadeadas
ligadas
e arrastadas pelo veneno de quem me feriu
me fizeram artista
da memória que pariu a lágrima
da lembrança que brotou
inconveniente
da foto borrada no álbum bonito
sem resolução
mas hoje as redes
seguram vidas
na quantidade de peixes
que a ninguém alimenta
a rede que não alcança só o mar
aprisiona até o poema mais ridículo
de todos os tempos
comprimindo os bofes
mata sufocada até a melancolia de antes
que rendeu o poema feio
e apertando como nó
que destrincha o que é mole
também não deixa o marasmo viver
porque mesmo ao morto
à rede só interessa o sorriso